São grupos profissionais, com técnica estudada de manipulação afetiva. Cair nisso não diz nada sobre a sua inteligência — e a vergonha é justamente o que impede a denúncia.
Golpe do amor: quando o vínculo é a ferramenta do crime
Atualizado em · Revisado por Alisson Ferrari
Um perfil constrói um vínculo afetivo acelerado e depois começa a pedir dinheiro, sempre com urgência. A vergonha é parte do golpe: ela é o que impede a denúncia.
Como funciona
- O perfil. Fotos roubadas de outra pessoa, história consistente e, quase sempre, uma justificativa para morar longe ou fora do país.
- A mudança de canal. A conversa sai do aplicativo de origem e vira diária, num canal privado.
- O vínculo acelerado. Planos, apelidos e intimidade em poucas semanas. Encontros e videochamadas são sempre adiados por algum motivo plausível.
- O primeiro pedido. Um valor pequeno, embrulhado em urgência: emergência médica, conta bloqueada, encomenda retida na alfândega.
- A escalada. Cada pagamento gera uma nova taxa final. Na variante de investimento, entra uma plataforma em que os primeiros saques pequenos funcionam — justamente para você aumentar o valor.
- O desaparecimento. E, meses depois, o segundo golpe: alguém dizendo ser advogado ou empresa de recuperação cobra para reaver o que você perdeu.
Sinais de alerta
- A pessoa nunca aparece ao vivo: a câmera falha, o horário nunca dá, o encontro é sempre adiado.
- A história explica por que ela mora longe e por que não pode ser encontrada.
- O relacionamento avança rápido demais para o tempo real de convivência.
- Qualquer pedido de dinheiro, por menor que seja, em qualquer justificativa.
- Cobrança de taxa para liberar encomenda, prêmio ou herança. A Receita Federal não cobra liberação de encomenda por ligação, mensagem, transferência, QR Code ou cartão.
- Uma plataforma de investimento indicada por essa pessoa, em que os primeiros saques funcionam.
- Pedido de fotos íntimas, ou uso delas para cobrar silêncio.
O que fazer agora, passo a passo
Na ordem. O que está no topo perde valor a cada hora que passa.
- AgoraPare de enviar dinheiro. Não é preciso ter certeza para parar: basta não enviar mais nada até ter.
- AgoraSe houve Pix, registre a contestação por fraude no seu banco. Se houve transferência internacional ou compra de criptomoeda, avise o banco mesmo assim e guarde o protocolo.
- Mesmo diaGuarde tudo antes que o perfil suma: prints das conversas, fotos usadas, dados bancários que você recebeu, comprovantes e endereços das plataformas.
- Mesmo diaRegistre boletim de ocorrência pela delegacia eletrônica do seu estado. Você não precisa contar a história inteira para ninguém que conheça você.
- Se houve plataforma de investimentoRegistre a ocorrência na CVM, que recebe reclamações e denúncias sobre oferta irregular de investimento.
- Se houve imagem íntimaA remoção pode ser exigida da plataforma mediante notificação, sem ordem judicial, desde que o material seja identificado. A SaferNet ajuda especificamente nesses casos.
- DepoisDesconfie de quem aparecer oferecendo recuperar o dinheiro. Cobrança antecipada para reaver perdas é o segundo golpe, aplicado sobre a mesma vítima.
Como se proteger
- Faça a busca reversa das fotos do perfil antes de investir tempo ou dinheiro.
- Proponha uma videochamada ao vivo, agora. A recusa repetida é a informação.
- Não envie dinheiro para quem você nunca encontrou pessoalmente, em nenhuma quantia.
- Desconfie de plataforma de investimento indicada por alguém que você conheceu numa relação afetiva.
- Não envie imagens íntimas a quem você não encontrou. Elas viram instrumento de cobrança.
- Conte para uma pessoa de confiança. O golpe depende de você não contar para ninguém.
Onde denunciar
| Canal | Para quê | O que ter em mãos |
|---|---|---|
| Delegacia eletrônica do seu estado | Registrar o crime | Prints, comprovantes e dados das contas usadas |
| Seu banco | Contestar o Pix e registrar a ocorrência | Data, valor e destino de cada transferência |
| SAC e denúncias da CVM | Denunciar plataforma ou oferta irregular de investimento | Endereço da plataforma e comprovantes |
| Central Nacional de Denúncias da SaferNet | Casos de imagem íntima divulgada ou usada para chantagem | Endereço onde o material está publicado |
| Procon do seu estado | Orientação ao consumidor | Documentos das transações |
| consumidor.gov.br | Reclamação formal com prazo de resposta | Conta gov.br nível prata ou ouro |
Casos noticiados
Registros do nosso Radar ligados a este golpe. Não reproduzimos o texto das matérias — o link leva ao veículo que publicou.
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Perguntas frequentes
Tenho vergonha de registrar boletim de ocorrência.
A vergonha é parte da técnica. São grupos organizados, que estudam manipulação afetiva e aplicam o mesmo roteiro em muitas pessoas ao mesmo tempo. A responsabilidade é de quem enganou. O registro é o que permite ligar o seu caso a outros e chegar à mesma quadrilha.
Eu ainda gosto da pessoa e acho que dessa vez é verdade.
É um sentimento legítimo, e é também a fase em que a vítima continua pagando. Faça um teste concreto: proponha uma videochamada ao vivo agora e não envie mais nada até que ela aconteça. Se for verdade, nada se perde.
A Receita Federal cobrou para liberar uma encomenda que ela mandou.
Não foi a Receita Federal. Ela não cobra liberação de encomenda por ligação, mensagem, transferência, QR Code ou cartão. Toda cobrança nesse formato é falsa.
Dá para tirar as fotos íntimas do ar?
O Marco Civil da Internet permite exigir a remoção diretamente da plataforma, mediante notificação e sem ordem judicial, desde que você identifique especificamente o material. Divulgar imagem íntima sem consentimento é crime.
Apareceu uma empresa oferecendo recuperar meu dinheiro. Vale a pena?
Cobrança antecipada para reaver perdas é o segundo golpe. Recuperação de valores se busca pelos canais oficiais e pela Justiça, nunca pagando antes a um intermediário que apareceu sozinho.
Fontes
- CVM — Portal do Investidor, Romance Scam, 08/10/2025. Consultado em 27/08/2026.
- CVM — Consultas, reclamações e denúncias; programa ContraGolpe, 23/10/2024. Consultado em 27/08/2026.
- Receita Federal — É Golpe? Golpe do Amor, atualizado em 11/12/2025. Consultado em 27/08/2026.
- SaferNet — Central Nacional de Denúncias e Canal de Ajuda. Consultado em 27/08/2026.
- Lei 12.965, de 23/04/2014, art. 21 (Marco Civil da Internet), no Planalto. Consultado em 27/08/2026.
- Lei 13.718, de 24/09/2018, que incluiu o art. 218-C no Código Penal, no Planalto. Consultado em 27/08/2026.
- Lei 15.397, de 30/04/2026 (Planalto). Consultado em 29/08/2026.
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Relatos de quem passou por isso
São relatos enviados por leitores, publicados após leitura da nossa equipe. Não são casos verificados — servem para mostrar as variações que o golpe tem assumido, não como prova de nada.
Ficha técnica
- Tipo
- Golpe do amor
- Canal
- Aplicativo de relacionamento · Redes sociais · WhatsApp
- Alvo
- Consumidores em geral · Pessoas idosas
- Prejuízo típico
- R$ 5.000 a R$ 50.000
- Situação
- Ativo
- Status editorial
- Fonte conferida
- Base legal
- Art. 171, § 2º-A, do Código Penal (fraude eletrônica), com a redação da Lei 15.397/2026: reclusão de 4 a 8 anos e multa; o § 2º-B aumenta a pena de um terço a dois terços quando o crime é praticado por servidor mantido fora do país, hipótese comum aqui. Havendo divulgação de imagem íntima sem consentimento, art. 218-C do Código Penal, incluído pela Lei 13.718/2018: reclusão de 1 a 5 anos. A remoção do material pode ser exigida da plataforma com base no art. 21 da Lei 12.965/2014 (Marco Civil da Internet).
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